sexta-feira, 26 de junho de 2009

DOS BONS LIVROS E DOS MAUS LIVROS

A leitura espiritual nos é talvez tão útil na tendência à perfeição como a oração, porque ela nos conduz tanto à oração como à virtude, diz São Bernardo (De modo bene viv., c. 59). 'A meditação e a leitura espiritual, diz o mesmo Santo, são excelentes meios para se vencer o demônio e conquistar o Céu'. Não podemos ter sempre nosso diretor espiritual junto de nós para pedir-lhe conselho em todas as nossas ações e, especialmente, em nossas dúvidas; a leitura espiritual, porém, supre o seu lugar, dando-nos as luzes de que necessitamos e os meios de evitar os enganos do demônio e do amor próprio, e de viver segundo a Vontade de Deus. E por isso, segundo afirma Santo Atanásio, não se encontrará um fervoroso servo de Deus que não seja dado à leitura de livros espirituais.
Do mesmo modo, tanto quanto é perniciosa a leitura de maus livros, é útil a leitura dos bons. Como aquela precipita tantas vezes a mocidade na perdição, assim esta é, muitas vezes a causa da conversão de muitos pecadores.
O autor dos livros bons é, em última análise, o Espírito de Deus, ao passo que o demônio é propriamente o inspirador dos maus. Este sabe esconder a muitos o veneno de que estão impregnados esses livros, pretextando que, pela leitura deles, se apropria um bom estilo ou uma reta norma de vida, ou que, pelo menos, assim se aproveita convenientemente o tempo. Eu afirmo, de minha parte, que não há coisa mais prejudicial que a leitura de maus livros, particularmente para aqueles que desejam levar uma vida devota.
Para tirar grande proveito da leitura espiritual,
devemos observar as seguintes regras:

1. Antes de começar a ler, devemos pedir a Deus que nos ilumine a respeito do que vamos ler. Já se disse acima que Nosso Senhor mesmo se digna falar conosco na leitura espiritual; por isso, devemos dizer-lhe, tomando o livro nas mãos: 'Falai, Senhor, que Vosso servo escuta'. Fazei-me conhecer a Vossa Vontade, pois Vos quero obedecer em tudo.
2. Na leitura espiritual não devemos ter a intenção de contentar o nosso desejo de saber ou até nosa curiosidade, mas unicamente procurar crescer no amor de Deus. Quando se lê para se aumentar seus conhecimentos, não é isso leitura espiritual, mas um simples estudo. É coisa pior, porém, ler-se por pura curiosidade, como fazem alguns que, por assim dizer, devoram os livros e nada mais têm em vista do que a satisfação de sua curiosidade. Que proveito poderão tirar de tal leitura? Todo o tempo que empregam nisso é perdido. Muitos lêem, e lêem muito, diz São Gregório (Hom. in Ezeq.), e, apesar disso, seu espírito não fica saciado, porque lêem só por curiosidade.
3. Para tirar proveito dos livros espirituais devemos lê-los com vagar e ponderação.'Pela leitura espiritual tua alma deve ser alimentada', diz Santo Agostinho. Ora, querendo alimentar-se convenientemente, não se deve engolir a comida, mas antes, mastigá-la bem. Pondera, pois, bem, o que lês, e procura aplicá-lo a ti mesmo. E se o que leste te causou uma forte impressão, segue o conselho de Santo Efrém (De pat. et. cons. saec.) e torna a ler repetidas vezes.
4. Se recebemos uma luz especial durante a leitura, ao se nos depar um belo pensamento ou uma ação virtuosa que nos comove o coração, devemos parar um pouco, para elevar a nossa mente a Deus, fazer um propósito, um ato de piedoso afeto e uma fervorosa súplica a Deus. Não faz nenhum mal se, entretanto, se escoa todo o tempo determinado para a leitura, pois um proveito maior do que o sobredito não podemos tirar da leitura espiritual. Muitas vezes a leitura de algumas linhas é mais proveitosa do que a de uma página inteira.
5. Finalmente, antes de fechar o livro, alma cristã, deves reter na memória algum pensamento piedoso que encontraste, para te ocupares com ele durante o dia, à semelhança do que se costuma fazer quando se passa por um jardim, apanhando-se uma flor para levá-la consigo.

Santo Afonso Maria de Ligório; Escola da Perfeição Cristã