sábado, 12 de dezembro de 2009


Homem e mulher: Diferentes e complementares

No princípio criou Deus o ser humano, “Homem e Mulher os criou” (Cf. Gn 1, 27). Criou-os na unidade e na diferença: “esta é osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2, 23), sendo .....

precisamente a mulher diferente do homem, mas criada por Deus para ser a sua companheira na vida. Isto significa que a unidade fundamental entre o homem e a mulher inclui em si mesma a diferença. Sendo esta irredutível e insuperável, a diferença existe como princípio de qualquer relação, tornando assim possível a comunhão que, por sua vez, é fruto da liberdade: o homem deixa os seus pais e a sua casa “para se unir à sua mulher, sendo os dois uma só carne” (Gn 2, 24).A Revelação cristã interroga, assim, - e rejeita – uma concepção (platónica) da natureza humana que interpreta a diferença e a complementaridade como estando ambas destinadas a desaparecer, a perder-se na unidade de um amor que, pela fusão do homem e da mulher, faria surgir um ser humano completo. Ao mesmo tempo, rejeita [a revelação cristã] aquela atitude contemporânea que procura deixar para trás toda a diferença real, toda a interdependência e complementaridade entre ambos, situando na vontade soberana de cada indivíduo, o princípio de toda a unidade pessoal e livre, negando inclusivamente o significado fundamental da vinculação homem-mulher.
A reciprocidade homem-mulher, inscrita pelo próprio Deus na Criação, manifesta, assim, desde o início, a natureza esponsal do ser humano. Evidencia, ao mesmo tempo, a insuficiência do indivíduo, considerado isoladamente; demonstra que o ser humano, muito pelo contrário, só tende à perfeição se andar pelo caminho da amizade e do amor; faz-nos também ver, portanto, a falsidade – de raiz – de certas teorias modernas baseadas numa suposta auto-suficiência do indivíduo, que seria soberano e livre de todo e qualquer vínculo ou compromisso.
Tudo no outro põe em evidência a total impossibilidade de ser reduzido à vontade de um, de perder-se numa unidade que, de qualquer maneira, visasse superar, à força, toda a diferença legítima entre ambos: a liberdade do ser espiritual; mas igualmente a sua realidade corporal.
Se a liberdade fala iniludivelmente da profundidade insondável do coração do outro, o rosto, o corpo, na sua alteridade evidente, na sua fragilidade, na sua beleza, fala também sempre de algo mais; de um destino que interpela o olhar do outro, pedindo-lhe e oferecendo-lhe, com modéstia, respeito e companhia.
A diferença insuperável entre homem e mulher transforma-os, a ambos, reciprocamente, no sinal maior da vivência um para o outro, vivência esta que se consubstancia, precisamente, na diferença, vista já não como ameaça mas como dom, gratuidade e promessa de vida.
E isto é assim porque Deus inscreveu na natureza de cada um o Seu próprio chamamento; chama-os, a ambos, a uma sublime vocação: na origem do amor, está sempre uma interpelação do outro, não uma simples manifestação da vontade possessiva de um.
Esta interpelação faz surgir – introduz – uma relação de amor na liberdade que há-de permanecer sempre. Um ser interpelado; um desejo do bem do amado; precisamente em tudo o que o outro é, e não segundo as medidas da própria vontade.
Deste modo, cada um, mesmo com as diferenças entre ambos, converte-se, para o outro, em ajuda para procurar em tudo discernir a vontade de Deus. Porque é a vontade de Deus o horizonte verdadeiro do amor puro.
Esta reciprocidade, por outro lado, chama-os a uma relação indestrutível, segundo as qualidades e atributos próprios de ambos – homem e mulher -, pela qual cada um recebe do outro a realização de uma fecundidade, impossível ao indivíduo considerado isoladamente.
A entrega mútua, no amor verdadeiro, que é possível através desta reciprocidade, permite a ambos uma expressão nova e pessoal do próprio ser, uma realização de si mesmo neste amor “obediente” ao verdadeiro bem do outro, na experiência profunda da comunhão.
E todavia, a fecundidade que ambos tornam mutuamente possível, a presença dos filhos, vai muito mais além da obra realizada e dos meios postos no amor mútuo, transformando-se novamente em sinal claro e inequívoco do mistério de amor, da acção directa de Deus, o Pai, amigo e origem da vida.
Poderia dizer-se então, com propriedade, que a experiência da paternidade – e da maternidade -, que um torna possível ao outro e Deus aos dois, leva à sua plenitude o que foi inscrito na reciprocidade própria da natureza humana que, respeitada na sua verdade, conduz o homem ao mistério do Outro [Deus], que é o mistério do Amor e da comunhão entre as três Pessoas divinas da Santa Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo, mistério este, revelado historicamente no amor esponsal de Jesus Cristo e da Sua Igreja (cf. Ef 5, 31-32).

Por: Alfonso Carrasco Rouco


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