terça-feira, 2 de junho de 2009

Capítulo 6
Como S. Francisco abençoou o santo Frei Bernardo e o deixou como seu vigário,
quando passou desta para a outra vida


Era Frei Bernardo de tanta santidade, que S. Francisco tinha por ele grande reverência e freqüentemente o louvava.
Estando um dia S. Francisco devotamente em oração, foi-lhe revelado por Deus que Frei Bernardo, por permissão divina, devia sustentar muitas e pungentes batalhas com o demônio.
Pelo que S. Francisco, tendo grande compaixão do dito Frei Bernardo, a quem amava como a filho, muitos dias orou com lágrimas, rogando a Deus por ele e recomendando-o a Jesus Cristo, que lhe desse vitória sobre o demônio.
E orando assim devotamente S. Francisco, Deus lhe respondeu: "Não temas, porque todas as tentações, com as quais Frei Bernardo deve ser combatido, são por Deus permitidas como exercício de virtude e coroa de mérito; e finalmente de todos os inimigos alcançará vitória, porque ele é um dos comensais do reino de Deus".
Da qual resposta S. Francisco recebeu grandíssima alegria e rendeu graças a Deus: e daquela hora em diante lhe dedicou sempre mais amor e reverência.
E bem lho demonstrou não só em vida mas até na morte. Porque, vindo S. Francisco a morrer, como o santo patriarca Jacó, estando em tomo dele seus dedicados filhos doridos e lacrimosos pela partida de tão amado pai, perguntou: "Onde esta o meu primogênito? Vem a mim, filho, para que a 'mia alma te bendiga, antes de minha morte".
Então Frei Bernardo disse em segredo a Frei Elias, que era vigário da Ordem: "Pai, coloca-te à mão direita do santo, para que ele te abençoe".
E, colocando-se Frei Elias à mão direita, S. Francisco, que perdera a vista pelo muito chorar, pôs a mão direita sobre a cabeça de Frei Elias e disse: "Esta não é a cabeça do meu primogênito Frei Bernardo".
Então Frei Bernardo adiantou-se à esquerda; e S. Francisco, estendendo os braços em forma de cruz, colocou a mão direita à cabeça de Frei Bernardo e a esquerda na de Frei Elias, e disse a Frei Bernardo: "Abençoe-te o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo com todas as bênçãos espirituais e celestiais em Cristo: pelo fato de teres sido o primeiro escolhido nesta Ordem para dar o exemplo evangélico e seguir a Cristo na pobreza evangélica; porque deste o que possuías e o distribuíste inteira e livremente com os pobres pelo amor de Cristo, mas ainda te ofereceste a ti mesmo nesta Ordem em sacrifício de suavidade.
Bendito sejas, pois, por Nosso Senhor Jesus Cristo e por mim, seu pobrezinho servo, com bênçãos eternas, quer caminhando, repousando, velando e dormindo, vivendo e morrendo. Quem te bendisser fique cheio de bênçãos e quem te maldisser não fique sem punição.
Sê o principal entre os teus irmãos, obedeçam todos os irmãos ao que ordenares: terás licença para receber e expulsar a quem quiseres e nenhum irmão terá poder sobre ti, e ser-te-á permitido ir e habitar onde te aprouver".
Depois da morte de S. Francisco os irmãos amaram e reverenciaram a Frei Bernardo como a pai venerável: e estando a morrer, vieram a ele muitos irmãos das diversas partes do mundo, entre os quais, o hierárquico e divino Frei Egídio, o qual com grande alegria disse: "Sursum corda, Frei Bernardo, sursum corda"; e Frei Bernardo disse em segredo a um irmão que preparasse para Frei Egídio um lugar apto à contemplação, e assim foi feito.
Chegando Frei Bernardo à hora da morte, mandou que o erguessem e falou aos irmãos que estavam diante dele, dizendo: "Caríssimos irmãos, não vos quero dizer muitas palavras: mas deveis considerar que no estado de religião em que vivi vós viveis, e no em que estou agora vós ainda estais, e acho isto em minha alma, que por mil mundos iguais a este não teria querido servir a outro senhor senão a Jesus Cristo: e de todos os pecados que cometi me acuso e apresento a minha culpa ao meu Salvador Jesus e a vós.
Rogo-vos, irmãos meus, que vos ameis uns aos outros"- E após estas palavras e outros bons ensinamentos, deitando-se na cama, sua face encheu-se de esplendor e alegria desmedidos, de que os irmãos muito se maravilharam; e naquela letícia sua alma santíssima, cercada de glória, passou da presente à bem-aventurada vida dos anjos.
Pelo louvor e pela glória de Cristo. Amém.

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